No meu primeiro artigo sobre as especialidades portuguesas, falei-vos de pratos salgados e, sobretudo, da enorme variedade desta cozinha. Com o Natal à porta, chegou a vez dos doces: eis os doces de Natal tradicionais que encontramos nas mesas portuguesas no fim do ano.
Em Portugal, a grande refeição de Natal é a consoada, na noite de 24 de dezembro. Depois do bacalhau, a mesa enche-se de doces que muitas vezes ficam lá até ao dia seguinte, e cada um vai petiscando quando lhe apetece. Muitos são fritos, aromatizados com canela e limão, ou feitos à base de gemas, uma herança da doçaria conventual.
Bom apetite!
Doces de Natal portugueses: o essencial em resumo
| 🍰 Doce | 📝 O que é | 📍 Quando / onde |
|---|---|---|
| Arroz doce | Arroz com gemas, limão e canela | Todo o país, no Natal e na Páscoa |
| Aletria | Massa fina doce com ovos e canela | Sobretudo no Norte |
| Bolo-rei | Coroa de massa levedada com frutos secos e fruta cristalizada | Do início de dezembro ao Dia de Reis |
| Bolo-rainha | O bolo-rei sem fruta cristalizada, só com frutos secos | Nas pastelarias, em dezembro |
| Pão de ló | Bolo muito fofo e leve | No Natal e na Páscoa |
| Rabanadas | Pão frito passado por açúcar e canela | Consoada, 24 de dezembro |
| Sonhos | Bolinhas de massa frita, muito leves | Consoada, 24 de dezembro |
| Filhós | Massa levedada esticada e frita, por vezes com abóbora | Consoada, 24 de dezembro |
| Coscorões | Massa fina frita, aromatizada com laranja | Consoada, 24 de dezembro |
| Azevias | Pastéis fritos de grão ou de batata-doce | Alentejo e região de Lisboa |
| Broas castelares | Bolinhos de batata-doce e amêndoa | Região de Lisboa |
| Lampreia de ovos | Lampreia feita de gemas e açúcar | Nas pastelarias, no Natal |
| Sortidos | Sortido de bolachas e biscoitos | Durante todas as festas |
Arroz doce, o clássico com canela
Parece-se com o riz au lait francês, mas leva gemas, que lhe dão a cor dourada, e casca de limão, para um aroma subtil. Encontra-se todo o ano, mas sobretudo no Natal, na Páscoa ou em casamentos. Vem quase sempre polvilhado com canela, muitas vezes a desenhar padrões ou palavras por cima.


Aletria, a sobremesa de massa
Desculpem os fãs, mas para mim este doce podia fazer parte das curiosidades da cozinha portuguesa. É o mesmo princípio do arroz doce, mas feito com… massa muito fina, os cabelos de anjo. Sim, leram bem: massa doce! Não sou grande fã, mas faz um enorme sucesso no fim do ano, sobretudo no Norte. Tal como o primo, costuma ser polvilhada com canela.

Bolo-rei, o rei da mesa de Natal
Nada a ver com a galette des rois francesa, recheada de frangipane: o bolo-rei é uma coroa de massa levedada, com frutos secos e fruta cristalizada inteira. Come-se durante todas as festas, do início de dezembro até 6 de janeiro, Dia de Reis. Antigamente escondia uma fava: quem a encontrasse tinha de oferecer o bolo-rei no ano seguinte.

Bolo-rainha, a versão sem fruta cristalizada
O bolo-rainha é a variante do bolo-rei para quem não gosta de fruta cristalizada. A mesma coroa de massa levedada, mas apenas com frutos secos: nozes, amêndoas, pinhões e passas. Um bolo mais simples, que se encontra ao lado do bolo-rei em todas as pastelarias em dezembro.
Pão de ló, o bolo fofo das festas
Um bolo muito fofo e bem alto, que se pode comparar ao sponge cake. É cozido numa forma com um buraco no meio. É simples, por vezes um pouco seco, mas acompanha muito bem um café ou um sumo de laranja. É um grande clássico do Natal e da Páscoa. Algumas terras têm a sua própria versão, como Ovar ou Alfeizerão, onde é servido ainda húmido por dentro.

Rabanadas, as fatias douradas do Natal
São parecidas com o pain perdu francês. O pão, o chamado cacete, é passado por uma mistura de vinho tinto e açúcar, ou de leite e açúcar, e depois por ovo, antes de ser frito. As fatias são depois passadas por açúcar e canela, ou regadas com calda. Como não gosto de vinho tinto, prefiro a segunda versão, que costuma ser feita para as crianças. Mas sim, é uma bomba calórica!

Sonhos de Natal, os fritos mais leves
São bolinhas de massa frita, leves e aromatizadas com canela, depois polvilhadas com açúcar em pó ou passadas por açúcar. Também existe uma versão com abóbora, os sonhos de abóbora.

Filhós, a massa frita com canela
Mais fritos! As filhós são feitas com uma massa levedada, esticada à mão até ficar fina, depois frita e polvilhada com açúcar e canela. Conforme a região e a família, a massa leva abóbora (filhós de abóbora) ou é aromatizada com laranja ou aguardente.
Coscorões, estaladiços e com laranja
Parecidos com as filhós, os coscorões são pedaços de massa muito fina, aromatizada com laranja, fritos até ficarem bem estaladiços e polvilhados com açúcar e canela. Lembram um pouco as bugnes francesas.
Azevias, os pastéis fritos de grão
São pequenos pastéis fritos em forma de meia-lua, recheados quase sempre com grão, batata-doce ou doce de ovos, tudo bem açucarado e aromatizado com canela e limão. Grão numa sobremesa surpreende muitos estrangeiros, mas é um grande clássico do Natal, sobretudo no Alentejo e na região de Lisboa.
Broas castelares, os bolinhos de batata-doce
Estes bolinhos ovais de batata-doce, amêndoa e canela são típicos da região de Lisboa no Natal. Não confundir com as broas de mel da Madeira, feitas com mel de cana e especiarias.
Lampreia de ovos, o doce de gemas
É o doce mais espetacular da mesa: uma «lampreia» feita inteiramente de gemas e açúcar (fios de ovos e doce de ovos), decorada com fruta cristalizada nos olhos e na boca. Uma receita herdada dos conventos, que se compra sobretudo nas pastelarias, para as festas.
Sortidos, para acompanhar o café
Um sortido de pequenos biscoitos variados, de chocolate, de coco ou de marmelada, para ir petiscando com o café durante as festas.

Onde provar os doces de Natal em Portugal?
A partir do fim de novembro, as pastelarias enchem-se de bolos-rei, sonhos e broas. Em Lisboa, a Confeitaria Nacional, aberta em 1829 na Praça da Figueira, é conhecida por ter sido a primeira a vender bolo-rei em Portugal. Para mais sugestões, vejam o nosso artigo onde comer em Lisboa. Em França, as pastelarias e mercearias portuguesas também os vendem em dezembro, sobretudo o bolo-rei.
💡 Dicas práticas
Os fritos (rabanadas, sonhos, filhós, coscorões) são sobretudo feitos em família para a consoada e sabem muito melhor acabados de fazer. Se viajarem por Portugal em dezembro, é nas pastelarias, ou em casa de amigos portugueses, que terão mais hipóteses de os provar. O bolo-rei, esse, encontra-se em todo o lado, até no supermercado.
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E vocês, que doces de Natal portugueses vos apetecem? Já provaram algum? Se tiverem dúvidas, ou se quiserem a receita de algum, digam-me nos comentários! E para preparar a vossa viagem, vejam o nosso artigo «visitar Portugal».
FAQ sobre os doces de Natal portugueses
As perguntas frequentes estão aqui!
Qual é o doce de Natal mais tradicional em Portugal?
O mais emblemático é o bolo-rei, uma coroa de massa levedada com frutos secos e fruta cristalizada. Mas a mesa de Natal portuguesa tem muitos outros: rabanadas, sonhos, filhós, arroz doce, aletria, azevias ou lampreia de ovos.
Quando se come o bolo-rei?
Aparece nas pastelarias no fim de novembro e come-se durante todas as festas, do Natal até 6 de janeiro, Dia de Reis.
Qual é a diferença entre o bolo-rei e o bolo-rainha?
O bolo-rei leva fruta cristalizada e frutos secos. O bolo-rainha é a versão sem fruta cristalizada: leva apenas frutos secos, como nozes, amêndoas ou pinhões.
O que é a consoada?
É a refeição da véspera de Natal, na noite de 24 de dezembro. Tradicionalmente come-se bacalhau com couves e batatas, seguido de uma grande mesa de doces onde cada um vai petiscando até tarde.
Quais são os doces fritos típicos do Natal?
Os mais comuns são as rabanadas, os sonhos, as filhós, os coscorões e as azevias. Quase todos são polvilhados com açúcar e canela ou regados com calda.
